O restauro histórico do Hotel Lutetia
Onde: Paris • 17 de Julho - 2026 | Fotos Divulgação Mandarin Oriental GroupApós quatro anos de obras, o arquiteto Jean-Michel Wilmotte restaurou o histórico hotel parisiense preservando a transição entre a Art Nouveau e a Art Déco, característica da arquitetura original do edifício inaugurado em 1910. Em 2025, o hotel passou a integrar o portfólio do Mandarin Oriental Hotel Group.
O Hotel Lutetia é um dos edifícios mais emblemáticos de Saint-Germain-des-Prés e um dos principais exemplos da transição entre a Art Nouveau e a Art Déco na arquitetura parisiense. Situado na esquina do Boulevard Raspail com a Rue de Sèvres, foi inaugurado em 1910 pela família Boucicaut, fundadora do Le Bon Marché, a histórica loja de departamentos considerada um dos primeiros magazines do mundo. Construído próximo ao empreendimento, o hotel nasceu para receber clientes e fornecedores que viajavam a Paris para fazer compras e negócios. Com o passar das décadas, ganhou vida própria e se tornou um dos hotéis mais emblemáticos da capital francesa.

Arquitetura e história
Situado na Rive Gauche — a margem esquerda do rio Sena — e cercado por livrarias, galerias, cafés históricos e restaurantes, o Lutetia acompanhou a transformação de Saint-Germain-des-Prés em um dos principais polos culturais de Paris. Nas décadas de 1920 e 1930, tornou-se ponto de encontro de escritores e artistas como André Gide, Antoine de Saint-Exupéry e representantes da chamada Geração Perdida. Durante a Segunda Guerra Mundial, o edifício foi ocupado pelo serviço de contraespionagem alemão e, ao fim do conflito, transformou-se em centro de acolhimento para deportados franceses que retornavam ao país, episódio lembrado até hoje por uma placa instalada em sua fachada.

Ao longo do século XX, o hotel recebeu hóspedes ilustres como Josephine Baker, Jean-Paul Sartre, Boris Vian, Jean Cocteau, Catherine Deneuve, David Lynch e Pierre Bergé. Charles e Yvonne de Gaulle passaram ali a noite de núpcias, em 1921. Nos anos 1970, a estilista Sonia Rykiel assinou a primeira grande renovação dos interiores.
Em 2014, o hotel fechou para uma restauração completa. Foram quatro anos de obras conduzidas por Jean-Michel Wilmotte, arquiteto francês conhecido por intervenções em edifícios históricos e projetos como a Ala Richelieu do Museu do Louvre e a remodelação das galerias impressionistas do Musée d'Orsay. O Lutetia reabriu em 2018 e, em 2025, passou a integrar o portfólio do Mandarin Oriental Hotel Group, mantendo seu nome histórico.

Hoje, o Mandarin Oriental Lutetia é o único hotel da Rive Gauche a ostentar a distinção Palace. Criada pelo governo francês em 2010, essa classificação representa o mais alto reconhecimento da hotelaria francesa e é concedida apenas a hotéis cinco estrelas considerados excepcionais. Além da qualidade da hospedagem, são avaliados critérios como arquitetura, patrimônio histórico, localização, gastronomia, personalização do serviço e reconhecimento internacional. Atualmente, pouco mais de 30 hotéis em toda a França possuem esse título.
Entre a Art Nouveau e a Art Déco
O edifício foi construído em um momento de transição da arquitetura francesa. A fachada preserva curvas e elementos ornamentais característicos da Art Nouveau, enquanto parte dos detalhes já antecipa a linguagem geométrica que marcaria a Art Déco poucos anos depois. A restauração procurou preservar essa sobreposição de estilos, sem privilegiar uma única época.

Durante as obras, foram restaurados vitrais, afrescos, pinturas decorativas, mosaicos e esculturas originais. Ao mesmo tempo, novos ambientes e infraestrutura foram incorporados para atender às necessidades da hotelaria contemporânea. Sobre a intervenção, Wilmotte resume a proposta em uma frase: "Descobrimos parte da história. O restante, reimaginamos."

Para o projeto de interiores, painéis em madeira de eucalipto laminada fazem referência aos transatlânticos do início do século XX, enquanto bronze e mármore Statuario aparecem em diferentes ambientes, incluindo banheiros, spa e piscina. As banheiras, com cerca de uma tonelada cada, foram esculpidas a partir de blocos únicos de mármore.


Grande parte do mobiliário foi desenhada pelo escritório Jean-Michel Wilmotte e produzida sob medida, com peças fabricadas pela Poltrona Frau. Luminárias em vidro Murano, almofadas Hermès inspiradas no desenho do calçamento parisiense e fotografias de ateliês de artistas reforçam a ligação do hotel com a cidade. O Lutetia mantém ainda uma equipe dedicada à conservação desses elementos, formada por dois marceneiros, três pintores decorativos e um especialista em mármore.
Arte como parte da identidade
A relação do Lutetia com a produção artística permanece ativa. Os espaços comuns abrigam obras de artistas como César, Arman, Philippe Hiquily e Takis, além de receber exposições temporárias de fotografia e escultura. Em 2023, o hotel apresentou esculturas monumentais do artista holandês Pieter Obels. Desde junho de 2024, três obras do espanhol Manolo Valdés ocupam os pátios internos.

A programação cultural também se estende aos bares. O Bar Joséphine recebe apresentações de jazz de quinta a sábado e sua carta de coquetéis foi inspirada nas graphic novels do ilustrador Lucas Harari. Já o Bar Aristide promove as noites Tempo!, dedicadas à música eletrônica, com curadoria de artistas como Agoria, Breakbot e Mirwais.
Durante a hospedagem
Estive hospedada no hotel em novembro de 2025, poucos dias após sua integração ao Mandarin Oriental Hotel Group. A localização privilegiada permite explorar Saint-Germain-des-Prés a pé ou passear por Paris de metrô – a estação Sèvres–Babylone fica a poucos passos. Para compras, a recomendação é passear pelo Le Bon Marché e La Gran Epicerie ou visitar a Hermès da Rue de Sèvres, que fica na esquina do hotel.
O atendimento foi um dos pontos altos da minha experiência. O concierge indicou excelentes restaurantes da região e a equipe de governança mantinha diariamente o quarto abastecido com amenities da Chopard, da linha Miel d'Arabie, um dos aromas mais marcantes que já encontrei em um hotel.

Os quartos refletem a renovação recente: banheiro revestido em mármore, banheira, ducha de alta pressão, vaso sanitário tecnológico e secador Dyson fazem parte da estrutura. A única surpresa foi descobrir que o café da manhã não é servido no Salão Saint-Germain, sob o vitral assinado por Fabrice Hyber, como imaginei antes da viagem, mas sim no Lutetia Brasserie – que é aberto ao público e aos hóspedes.


Ainda assim, a variedade do buffet compensa: frutas, pães, queijos, iogurtes, sucos naturais e um menu preparado na hora com diferentes opções de ovos, waffles, rabanadas e cafés. Para quem aprecia arquitetura, design e patrimônio, é um dos endereços mais interessantes de Paris.

