Arquitetura do silêncio
Onde: • 26 de Janeiro - 2026 |Edifício em SC é projetado para gerar introspecção e memória espiritual.
Erguido em um terreno que carrega uma história pouco comum no mercado imobiliário contemporâneo, o Sion nasce a partir de uma premissa rara: respeitar a memória do que já existia antes da obra. Localizado no Balneário Perequê, em Porto Belo, o solo que hoje recebe o novo empreendimento da Sunprime foi, por décadas, um espaço de recolhimento e convivência pertencente à Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, de Nova Trento. Mais do que um dado histórico, essa origem se tornou o ponto de partida conceitual do projeto.
O nome do edifício faz referência ao Monte Sião e reforça a intenção de traduzir, por meio da arquitetura, uma ideia de pausa e introspecção. Em um cenário urbano cada vez mais marcado pelo excesso — de estímulos, imagens e ruídos — o Sion propõe o caminho inverso. Aqui, o silêncio é uma escolha. Um valor que se manifesta tanto na organização dos espaços quanto na forma como ele se apresenta visualmente.

Essa decisão se materializa de forma clara na chamada blessing room, um ambiente dedicado à contemplação, integrado ao rooftop, um gesto arquitetônico que dá continuidade ao sentido original do terreno, preservando o caráter de recolhimento que sempre marcou o local. O edifício, com 29 pavimentos e 86 unidades, incorpora esse princípio ao longo de suas áreas comuns, que priorizam respiro, luz natural e uma relação mais serena com o entorno.

A arquitetura de interiores, assinada pelo Studio Guilherme Garcia, aprofunda o conceito ao optar por uma linguagem contida, silenciosa e sensorial. Inspirados nas materialidades de Jerusalém, os ambientes não têm poucos elementos, cuidadosamente escolhidos levando a uma experiência sensorial sutil.

A fachada, desenhada por Rafael Castro, do escritório Castro Arquitetos, tem volumetria sinuosa que remete ao movimento das ondas. Já o paisagismo, desenvolvido pelo Estúdio Daniel Nunes, reforça essa leitura ao trabalhar espécies e desenhos que se integram ao edifício sem protagonismo excessivo, incluindo um layout no quinto pavimento que faz referência à pesca artesanal da região.

A presença da arte segue a mesma lógica. No lobby, a obra “Alvéolo Alumínio”, do artista Rodrigo Zampol, estabelece uma relação direta com o tempo, a matéria e o silêncio, ampliando a experiência do espaço sem recorrer a narrativas explícitas. Tudo é pensado para que a arquitetura fale baixo — e seja ouvida.
Ao ocupar um terreno marcado pela espiritualidade e pela vida comunitária, o Sion assume uma postura rara: a de compreender que construir também é interpretar. Nesse caso, interpretar o passado para propor um presente mais atento, onde o luxo não está no excesso, mas na possibilidade de desacelerar.
