Arquitetura

Uma arquitetura mais gentil no Ecoville

Onde: • 16 de Janeiro - 2026 | Fotos Eduardo Macarios

Projeto em Curitiba propõe edifício de pequena escala, diversidade de moradias e relação mais aberta com a rua.

O bairro Mossunguê, em Curitiba, é um dos territórios que melhor traduzem os rumos da incorporação imobiliária da cidade nas últimas décadas. Conhecida comercialmente como Ecoville, a região concentra alguns dos maiores valores de metro quadrado da capital e é marcada por uma urbanização baseada em vias de trânsito rápido, edifícios isolados, muros altos e pouca vida no espaço público. Um desenho urbano eficiente para o automóvel, mas pouco convidativo para quem caminha ou habita o cotidiano da rua.

 

É nesse contexto que a Rua José Carolo surge quase como um desvio de rota. Mais calma, com edificações de menor gabarito e uma escala urbana menos agressiva, ela evidencia os contrastes de um bairro ainda em formação. Mesmo a apenas uma quadra das grandes vias, o terreno escolhido para o Klee Urban Habitat permite outra leitura da cidade — mais próxima, mais humana. Um exercício de contenção, cuidado e gentileza urbana — qualidades cada vez mais raras, e cada vez mais necessárias, na arquitetura contemporânea de Curitiba.

 

 

 

O projeto, assinado pelo escritório Solo Arquitetos, se consolida como um contraponto claro aos grandes volumes que dominam a região. Com apenas quatro pavimentos e um mezanino, o edifício abriga 23 apartamentos distribuídos em tipologias variadas, com unidades de um, dois e três dormitórios. No térreo, lofts duplex de um dormitório se abrem para jardins privativos, criados a partir dos recuos laterais obrigatórios. Nas plantas tipo, os apartamentos de dois dormitórios eliminam corredores e posicionam os quartos nas laterais, garantindo ambientes mais amplos e flexibilidade para adaptações futuras. Já os apartamentos de três dormitórios, voltados para a fachada principal, se abrem para a vista do bosque existente em frente ao terreno, incorporando a paisagem como parte do morar. No último pavimento, as unidades duplex com duas suítes aproveitam a vista mais elevada do bairro.

 

 

Essa diversidade de plantas impôs um desafio central ao projeto: como dar unidade a um edifício com tantas variações internas sem fragmentar sua expressão arquitetônica. A solução encontrada foi o uso contínuo de varandas ao longo das fachadas, associadas a brises móveis, que amarram o volume, organizam as aberturas e conferem identidade ao conjunto. O resultado é um edifício coeso, sem hierarquizar excessivamente as unidades, e que se apresenta de forma equilibrada na paisagem.

 

 

 

Mais do que resolver um programa residencial, o Klee Urban Habitat se posiciona como um elemento urbano consciente. Desde os primeiros estudos, a relação com a rua foi tratada como parte essencial do projeto. Em vez de muros opacos, o edifício oferece um jardim aberto no recuo frontal, varandas próximas à calçada e floreiras que funcionam como respiro visual. Pequenos gestos, mas significativos, especialmente em um bairro marcado pela velocidade, pela impermeabilidade visual e pela distância entre edifício e cidade.