Arquitetura

Arquitetura natural

Onde: China • 05 de Agosto - 2026 | Fotos Chao Zhang, Guowei Liu

Erguida em uma área alagável da China, a construção serve de abrigo para pessoas e animais.

A primeira impressão é de uma ruína. Grandes cilindros de concreto surgem entre a vegetação, sustentando uma cobertura leve de bambu que parece flutuar sobre a paisagem. Não há fachadas, portas ou ambientes claramente definidos.

 

Projetada pelo Studio 10, a estrutura ocupa uma área de preservação em Longyou, na China, em que parte do terreno desaparece sob a água, num ciclo semelhante ao observado no Pantanal. Com a chegada da estação chuvosa, o rio ocupa a margem. Quando as águas baixam, o solo reaparece redesenhado pelos sedimentos e lentamente volta a ser tomado pela vegetação.

 

Qualquer construção rígida teria dificuldade para se estabelecer nesse cenário em permanente transformação, mas aqui, ao contrário de alterar a dinâmica, a estrutura oferece áreas de permanência e observação sem interromper o ciclo natural das cheias.

 

O local funciona como um abrigo compartilhado. Quem visita o parque encontra sombra, locais para descanso e pontos de observação da paisagem. Ao mesmo tempo, parte da estrutura foi planejada para receber a fauna que vive na área úmida. Alguns cilindros escondem nichos para aves que, juntamente com a vegetação, ampliam as possibilidades de abrigo para diferentes espécies.

 

Bambu e concreto são os dois elementos que definem a identidade da construção. O bambu, presente há séculos na construção e no artesanato asiáticos, forma uma trama leve que filtra a luz e serve de suporte para plantas trepadeiras. A intenção não é manter a estrutura sempre visível. Com o passar do tempo, a cobertura tende a desaparecer sob a vegetação, tornando-se parte da paisagem.

 

O concreto segue caminho semelhante. Os grandes cilindros receberam textura áspera e coloração terrosa, lembrando superfícies escavadas pela ação da água. Vistos por fora, parecem blocos maciços. Ao atravessá-los, revelam espaços vazios, iluminados por aberturas irregulares que enquadram a paisagem.

 

As paredes espessas, a luz filtrada, os vazios escavados e a sensação de abrigo remetem às formações naturais. Em outros momentos, a estrutura lembra ninhos suspensos ou pequenos refúgios espalhados pela margem do rio. São espaços que convidam à permanência e à observação, sem estabelecer uma separação clara entre interior e exterior.

 

Em uma época em que muitos edifícios procuram afirmar sua presença, este parece fazer justamente o contrário: prefere ser descoberto aos poucos e permitir que o tempo complete a obra.